... na busca dessa famigerada raça chamada Jornalistas 2.0 em Portugal
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Out 09

Ok, ok, o título é um bocado dramático, mas mais vale começar assim e acabar com um “Jovem Mestre sem espinhas após aventura gloriosa”. Tomando como ponto de partida este pequeno aparte noticioso, já se pode começar a perceber que, após uma (demasiado) longa ausência forçada por motivos profissionais, é um mundo bastante diferente do dos restantes colegas – ou não estivéssemos num departamento que prima pela pluri/multi/interdisciplinariedade :-D - aquele que me proponho a abraçar neste projecto de dissertação em Comunicação Multimédia pela Universidade de Aveiro.

 

Ponto prévio: chutem a usabilidade para canto, desliguem as câmaras de vídeo, diminuam a realidade aumentada para um tamanho aceitável, façam game over aos serious game, levem o SAPO a dar uma volta numa limusina da Ferrero Rocher e dêem repouso aos fiduciais. Atom e RSS também são proibidos até ao dia em que eu perceba a verdadeira diferença entre eles. Comigo falar-se-á, a partir de agora, de jornalismo, jornalistas, web 2.0, social media/media sociais e na forma como estas estão (ou não…) a influenciar/transformar o trabalho dos profissionais da comunicação social em Portugal.

 

À pergunta “Porque escolhi esta temática?”, proponho uma primeira resposta de cariz meramente pessoal. Sendo licenciado em Jornalismo e Ciências da Comunicação, tenho um interesse natural por esta área. Relativamente aos media sociais / social media (onde se incluem as redes sociais, serviços de micro-blogging, blogues, ferramentas de instant messenging, wikis, etc . ver wiki-definição), trata-se de uma área  com a qual  lido diariamente a nível profissional,  enquanto responsável por toda a “existência” da Universidade do Porto na Web 2.0, para além de ter sido um tema que me entusiasmou particularmente ao longo do primeiro ano do mestrado.

 

Feitas as apresentações, o resto da explicação (preparem-se que é longe...) reside na convicção profunda, sustentada numa opinião pessoal mas sobretudo na discussão gerada entre especialistas e profissionais da área, de que estamos perante um tema cuja importância toca a todos nós enquanto (em potência ou efectivos) consumidores massivos de informação veiculada pelos média mas, mais do que nunca, potenciais criadores de informação que, em poucos segundos , poderá estar a ser acedida através de ferramentas online como o Twitter, o Facebook ou o MSN por milhões de pessoas em todo o planeta. SCHMITT, OLIVEIRA & FIALHO (citando, por sua vez, Anderson & Spyer) constatam isso mesmo  ao afirmarem que “ ideia de que o poder da imprensa pertence aos donos da tinta faz parte do passado. Hoje qualquer pessoa com um computador ligado à Internet pode divulgar informações de forma fácil, rápida e praticamente sem custos, graças ao acesso aos media sociais e à abertura para a participação que algumas corporações de média estão a oferecer às audiências”

 

Neste contexto, qual é/será o papel dos profissionais da comunicação social face a uma realidade em que os utilizadores dispõem de soluções alternativas para obter novas informações de forma mais rápida, interactiva e partilhada, do que aquelas que são propostas tradicionalmente pelos média (sites oficiais incluídos)? Estará esgotado o papel dos jornalistas enquanto mediadores entre a realidade e o “cidadão comum?” Tudo não passará de um fenómeno passageiro que não deve influenciar as práticas jornalísticas? Ou estaremos perante o final anunciado do jornalismo em prol da hegemonia dos media sociais que se afirmam pela internet e do Jornalismo do Cidadão por eles incentivado?

 

Se grande parte destas perguntas começaram a ser formalizadas já em meados/finais dos anos 90 do século XX por altura da “migração” dos órgãos de comunicação social para a internet  (com o aparecimento do jornalismo online e a afirmação da Web enquanto ferramenta de apoio à actividade profissional) e, mais tarde, com o eclodir generalizado do fenómeno dos blogues e dos chats, a verdade é que serviços Web 2.0 como o Twitter e o Facebook – só para referir os mais conhecidos - têm vindo, segundo vários profissionais e especialistas na área da comunicação social e das Ciências da Comunicação, a gerar novas problemáticas para o Jornalismo. Entre optimistas e pessimistas, o ponto de partida é similar: nunca como hoje os jornalistas se viram, de forma tão evidente, ao nível do utilizador “comum” (ou vice-versa, consoante o ponto de vista…), na medida em que estes partihlam de um mesmo espaço mediático amplamente interactivo, colaborativo e propício à geração e troca de informação em larga escala e a alta velocidade.

 

O que fazer? “Se não os vences junta-te a eles”, diz o ditado, mas também muitos daqueles que encaram a utilização dos media sociais por parte dos jornalistas como uma real oportunidade ao serviço daqueles profissionais numa Sociedade da Informação onde a rapidez da difusão de  informação (e cada vez menos a sua qualidade?) tende a marcar a diferença entre os potenciais consumidores. Focando as atenções na última edição - Outono/Fall 2009 - dos Nieman Reports  (publicação lançada, de quatro em quatro meses, pela Nieman Foundation for Journalism at Harvard, um projecto da Univerisdade de Harvard de incentivo à investigação na área do Jornalismo)  dedicado integralmente à relação entre Jornalismo e Social Media, temos então as seguintes mais-valias associadas á presença dos jornalistas nos media sociais :  a possibilidade de retirar ideias para reportagem; de encontrar notícias de última hora; de estabelecer um contacto directo e informal com o utilizador visando a partilha de informações úteis e quebrando barreiras e constrangimentos que marcaram, por tradição, a relação entre actores activos (jornalistas) e passivos (consumidores) no processo de produção e difusão de informação;  de realizar entrevistas, de promover os próprios trabalhos através das redes sociais; e, por fim, de se associar a outros jornalistas em redes de solidariedade, contratanto a atitude individualista que é associada, "por defeito", aos profissionasi da comunicação social (ex: JournalistTweets).

 

Paralelamente, a verdade é que os media sociais online são hoje uma realidade nas redacções dos meios de comunicação social, sendo sintomático o facto de, em Portugal, a generalidade dos média nacionais terem reforçado a sua presença online com a criação de páginas oficiais em espaços virtuais como o Twitter, o Flickr, o Facebook. Como paradigma deste fenómeno, basta lembrar a cobertura intensiva que vários órgãos de comunicação social portugueses realizaram das últimas eleições legislativas e autárquicas através da utilização massiva das redes sociais (com o Twitter à cabeça), utilizando-as como forma de difundir conteúdos diversificados (multimédia) e praticamente em tempo real (realidade que estou a estudar n disciplina de Estatística, aliás) . Estará então na internet (e, por arrasto, nos media sociais o elixir para salvar o jornalismo e os jornalistas enquanto fiéis guardadores do Quarto Poder?

 

Se no caso dos órgãos de comunicação social a questão se coloca em termos mais simples, a realidade torna-se infinitamente mais complexa quando se avalia o impacto  da utilização da internet|media sociais por parte dos jornalistas.  Assim, sendo admissível, a priori, que as redes sociais, os blogues ou os serviços de microblogging  facilitam o acesso a fontes de informação, a verdade é que geram outro conjunto de preocupações de ordem ética e profissional que comearam a ser levantadas a partir do momento em que a interbet passou a ser assimilada como ferramenta de trabalho e que se ergueram ainda com maior intensidade por ocasião do surgimento dos blogues. Entre elas, e remetendo novamente para as ideias presentes no último Nieman Report  , destacam-se: as dificuldades em destrinçar a credibilidade das fontes de informação acedidas através da internet| redes sociais; os problemas em determinar a verdadeira origem das informações  num meio partilhado entre um número potencialmente infinito de utilizadores; a dificuldade em filtrar convenientemente  a informação face à pressão de encontrar novidades a cada momento;  ou a individualização do jornalista face ao meio de comunicação social onde se insere, uma vez que tem outras plataformas (twitters, blogues...) nas quais pode afirmar o seu trabalho, podendo gerar problemas no seu compromisso de fidelidade para com a entidade patronal.

 

Remetendo estas questões para a realidade, não é por acaso que vários  órgãos de comunicação social de referência a nível mundial já elaboraram regras para o uso da internet por parte dos seus jornalistas, com enfoque específico nos media sociais (ex:BBC e Washington Post). Igualmente inquietante é o facto de um estudo britânico ter concluído, por exemplo, que 78% dos utilizadores das redes sociais admitiram alterar o seu comportamento online se soubessem que as informações por si divulgadas  poderiam aparecer nos média , o que nos leva a questionar sobre até que ponto todos os actores em jogo jogam dentro das mesmas regras.

 

E em Portugal? Como é que os jornalistas, no seu contexto de trabalho, aderiram aos novos desafios lançados pelos media sociais, expressão masi visível das potencialidades da web 2.0? À luz da última parte da pergunta, é então objectivo maior deste trabalho compreendere dar a perceber de que modo os jornalistas portugueses se estão a integrar nas lógicas de funcionamento dos media sociais e de que modo é que estas ferramentas interferem na sua prática profissional. Especificando  os objectivos deste trabalho, pretende-se (e ainda de forma muito genérica, assumo):

 

 

1) Traçar o perfil do jornalista português na Web 2.0 (é um utilizador dos media sociais? O que faz? De que forma é que aqueles impactam no seu quotidiano profissional? )

 

2) Perceber o impacto dos conteúdos gerado a aprtir da presença nos media sociais enquanto fonte de informação utilizada pelos profissionais da comunicação social portugueses.

 

3) Perceber se a adesão aos media sociais influenciou a visão que os jornalistas têm do público, enquanto sujeito (potencialmente) activo no processo de criação da informação

 

4) Compreender o novo paradigma de comunicação apoiados nos media sociais (vantagens e desvantagens) e até que ponto ele está a modificar, ou não, a forma de se fazer jornalismo em Portugal

 

5) Procurar destrinçar, no terreno, as problemáticas éticas e deontológicas associadas à utilização dos media sociais enquanto espaços de intervenção/recolha de informação por parte dos jornalistas portugueses.

 

6) Compreender o posicionamento dos órgãos e comunicação social face à utilização da internet / media sociais pelos seus jornalistas.

 

Avançando um pouco mais na forma como me posiciono perante este tema, estou plenamente convicto de que a afirmação do jornalismo (no geral e do portugues, claro está, no particular) nos dias que correm terá que pressupor um equilíbrio entre o aproveitamento dos media sociais   por parte dos jornalistas (sob o perigo de “perderem a carruagem” caso não o façam) e na manutenção das boas práticas jornalísticas asssociadas por tradição, à profissão. O mesmo quer dizer que o Jornalismo do cidadão e o “aproveitamente do mesmo pelos profissionais dos média não impede, por si, só um jornalismo de cariz formador, menos dado ao entretenimento e à fugacidade do valor notícia tal como parece ser veiculada pelas ferramentas online (redes sociais à cabeça). Será que é isso que acontece? Fica uma das perguntas que me irão mover ao longo dos próximos capítulos..


mais sobre mim
Tema do Projecto
JORNALISTAS 2.0: PROBLEMA OU OPORTUNIDADE NAS REDACÇÕES DA IMPRENSA DIÁRIA PORTUGUESA? (ainda em estudo. queria usar a palavra conversação algures...)
Autor
Tiago J. Reis
Âmbito
Mestrado em Comunicação Multimédia | Multimédia Interactivo pela Universidade de Aveiro
Ano Lectivo
2009/2010
Orientadora
Lídia Oliveira Hélder Bastos (co-orientador)
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